Somos todos da Idade Média,

Somos todos da Idade Média, 

por Hilário Franco Júnior

Pouca gente se dá conta, mas muitos hábitos, conceitos e objetos tão presentes no nosso dia-a-dia, inclusive o próprio idioma que falamos, vêm daquela época.
Muitos professores consideram especialmente árdua a tarefa de ensinar História Medieval. A distância que separa os alunos de época tão remota, argumentam alguns, seria um dos principais obstáculos. Como despertar seu interesse por tema tão antigo? Como passar às novas gerações conceitos, idéias e fatos que, aparentemente, têm tão pouco a ver com o mundo de hoje? Mas seria bem diferente se eles mostrassem a seus discípulos que, como veremos a seguir, e embora muita gente não se dê conta, nosso próprio cotidiano está impregnado de hábitos, costumes e objetos que vêm de muito mais longe do que se pode imaginar.
Ao tratarmos da História do Brasil, por exemplo, a tendência é começar no dia 22 de abril de 1500, quando Pedro Álvares Cabral e os tripulantes de sua esquadra “descobriram” nossa terra. Mas aqueles homens não traziam atrás de si, dentro de si, toda uma história? Não trouxeram para cá amplo conjunto de instituições, comportamentos e sentimentos? Aquilo que é até hoje o Brasil não tem boa parte da sua identidade definida pela longa história anterior de seus “descobridores”? Dizendo de outro modo, nossas raízes são medievais, percebamos ou não este fato.
Pensemos num dia comum de uma pessoa comum. Tudo começa com algumas invenções medievais: ela põe sua roupa de baixo (que os romanos conheciam mas não usavam), veste calças compridas (antes, gregos e romanos usavam túnica, peça inteiriça, longa, que cobria todo o corpo), passa um cinto fechado com fivela (antes ele era amarrado). A seguir, põe uma camisa e faz um gesto simples, automático, tocando pequenos objetos que também relembram a Idade Média, quando foram inventados, por volta de 1204: os botões. Então ela põe os óculos (criados em torno de 1285, provavelmente na Itália) e vai verificar sua aparência num espelho de vidro (concepção do século XIII). Por fim, antes de sair olha para fora através da janela de vidro (outra invenção medieval, de fins do século XIV) para ver como está o tempo.
Ao chegar na escola ou no trabalho, ela consulta um calendário e verifica quando será, digamos, a Páscoa este ano: 23 de março de 2008. Assim fazendo, ela pratica sem perceber alguns ensinamentos medievais. Foi um monge do século VI que estabeleceu o sistema de contar os anos a partir do nascimento de Cristo. Essa data (25 de dezembro) e o dia de Páscoa (variável) também foram estabelecidos pelos homens da Idade Média. Mais ainda, ao escrever aquela data – 23/3/2008 –, usamos os chamados algarismos arábicos, inventados na Índia e levados pelos árabes para a Europa, onde foram aperfeiçoados e difundidos desde o começo do século XIII. O uso desses algarismos permitiu progressos tanto nos cálculos cotidianos quanto na matemática, por serem bem mais flexíveis que os algarismos romanos anteriormente utilizados. Por exemplo, podemos escrever aquela data com apenas sete sinais, mas seria necessário o dobro em algarismos romanos (XXIII/III/MMVIII).
Para começar a trabalhar, a pessoa possivelmente abrirá um livro para procurar alguma informação, e assim homenageará de novo a Idade Média, época em que surgiu a idéia de substituir o incômodo rolo no qual os romanos escreviam. Com este, quando se queria localizar certa passagem do texto, era preciso desenrolar metros de folhas coladas umas nas outras. Além disso, o rolo desperdiçava material e espaço, pois nele se escrevia apenas de um lado das folhas. O formato bem mais interessante do livro ficou ainda melhor com a invenção da imprensa, em meados do século XV, que permitiu multiplicar os exemplares e assim barateá-los. Tendo encontrado o que queria, a pessoa talvez pegue uma folha em branco para anotar e, outra vez, faz isso graças aos medievais. Deles recebemos o papel, inventado anteriormente na China, mas popularizado na Europa a partir do século XII. Mesmo ao passar suas idéias para o computador, a pessoa não abandona a herança medieval. O formato das letras que ali aparecem, assim como em jornais, revistas, livros e na nossa caligrafia, foi criado por monges da época de Carlos Magno.
Sentindo fome, a pessoa levanta os olhos e consulta o relógio na parede da sala, imitando gesto inaugurado pelos medievais. Foram eles que criaram, em fins do século XIII, um mecanismo para medir o passar do tempo, independentemente da época do ano e das condições climáticas. Sendo hora do almoço, a pessoa vai para casa ou para o restaurante e senta-se à mesa. Eis aí outra novidade medieval! Na Antiguidade, as pessoas comiam recostadas numa espécie de sofá, apoiadas sobre o antebraço. Da mesma forma que os medievais, pegamos os alimentos com colher (criada aproximadamente em 1285) e garfo (século XI, de uso difundido no XIV). Terminada a refeição, a pessoa passa no banco, que, como atividade laica, nasceu na Idade Média. Depois, para autenticar documentos, dirige-se ao cartório, instituição que desde a Alta Idade Média preservava a memória de certos atos jurídicos (“escritura”), fato importante numa época em que pouca gente sabia escrever.
À noite, enfim, a pessoa vai à universidade, instituição que em pleno século XXI ainda guarda as características básicas do século XII, quando surgiu. As aulas, com freqüência, são dadas a partir de um texto que é explicado pelo professor e depois debatido pelos alunos. Alguns deles recebem um auxílio financeiro para poderem estudar, como no colégio fundado pelo cônego Roberto de Sorbon (1201-1274) e que se tornaria o centro da Universidade de Paris. Depois de mais um dia de trabalho e estudo, algumas pessoas querem relaxar um pouco e passam na casa de amigos para jogar cartas, divertimento criado em fins do século XIV, como lembram os desenhos dos naipes e a existência de reis, rainhas e valetes. Outros preferem manter a mente bem ativa e vão praticar xadrez, jogo muito apreciado pela nobreza feudal, daí a presença de peças como os bispos, as torres e as rainhas.
Durante todas essas atividades, pensamos, falamos, lemos e escrevemos em português, sem, na maioria das vezes, nos darmos conta de que esse elemento central do patrimônio cultural brasileiro vem da Idade Média. E não só porque a nossa língua nasceu em Portugal medieval. Como qualquer língua, com o passar do tempo o português falado na sua terra de origem foi se alterando bastante. Muitas características do idioma falado hoje em dia em Portugal – inclusive o que chamamos de sotaque daquele povo – são do século XIX. Mas no Brasil aquele idioma foi introduzido no século XVI por colonos que falavam da mesma forma que cem ou duzentos anos antes, isto é, como em Portugal medieval. Além disso, sendo o Brasil muito vasto e muito distante da metrópole portuguesa, as lentas transformações na língua demoravam mais para chegar aqui. Em resumo, falamos hoje um português mais parecido com o da Idade Média do que com o de Portugal moderno.
Estudos recentes mostraram que idosos analfabetos do interior de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo usavam, em fins do século XX, formas do português dos séculos XIII-XVI. Essas pessoas ainda falam esmolna em vez de “esmola”, pessuir e não “possuir”, despois no lugar de “depois”, preguntar para dizer “perguntar”. Contudo, não se trata propriamente de erros, e sim de exemplos de manutenção de formas antigas, levadas àqueles locais pelos bandeirantes nos séculos XVI e XVII. Devido ao isolamento e à pobreza daquelas regiões, esse modo de falar prolongou-se pelos séculos seguintes.
Basta uma rápida olhada em qualquer aglomerado humano no Brasil, seja no metrô, num estádio de futebol ou simplesmente nas ruas, para se constatar o que todos sabemos: a população brasileira tem alto grau de mestiçagem. Nada estranho, já que a terra era habitada por diferentes tribos indígenas quando os portugueses aqui chegaram, e logo foram introduzidos muitos escravos africanos. O que se ignora com freqüência, porém, é que se os dominadores portugueses aceitaram com facilidade a mestiçagem, é porque ela fazia parte da sua prática social havia muito tempo. Eles resultavam da mistura entre celtas, romanos, germanos, berberes (população do norte africano), árabes, judeus e negros. Importantes historiadores já afirmaram que, pelo menos até o século XIV, os mouros não devem ser considerados uma etnia, e sim uma minoria religiosa, porque, em termos raciais, não havia diferença entre portugueses cristãos e portugueses muçulmanos. Portanto, os portugueses já eram mestiços ao chegarem à América, o que facilitou a mistura racial na colônia.
Estudar História – de qualquer época e de qualquer local – não deve ser tarefa utilitarista, não deve “servir” para alguma coisa específica. A função de seu estudo é mais ampla e importante; é desenvolver o espírito crítico, é exercitar a cidadania. Ninguém pode atingir plenamente a maturidade sem conhecer a própria história, e isso inclui, como não poderia deixar de ser, as fases mais recuadas do nosso passado. Assim, estudar História Medieval é tão legítimo quanto optar por qualquer outro período. Mas não se deve, é claro, desprezar pedagogicamente a relação existente entre a realidade estudada e a realidade do estudante. Neste sentido, pode ser estimulante mostrar que, mesmo no Brasil, a Idade Média, de certa forma, continua viva.

Hilário Franco Júnior é professor da Universidade de São Paulo e autor de A Idade Média, nascimento do Ocidente (Brasiliense, 2006) e de “Raízes medievais do Brasil” (Revista USP, 2008).
Texto retirado de “Revista de História da Biblioteca Nacional” , publicado em 01/03/2008.

Reconquisata Cristã da Península Ibérica

Mouros vs. Cristãos

Las Navas de Tolosa
O ataque de um grupo de fundamentalistas islâmicos a prédios norte-americanos em Nova York e Washington, ocorrido em 11 de setembro de 2001, faz parte de um desacerto entre mouros e cristãos que se arrasta por séculos. Tal como hoje ocorre, quando os Estados Unidos esforçam-se por congregar uma vasta coalizão de países ocidentais, há oito séculos os reis cristãos da Península Ibérica também o fizeram. Para enfrentar a ameaça islâmica, os monarcas de Castela, de Aragão e de Navarra apelaram para que gente da Europa inteira, atendendo à cruzada, os socorresse para repelir a ofensiva dos seguidores do Profeta. O resultado foi a batalha de Las Navas de Tolosa, de 1212.
“O pan-islamismo é uma assombração. A Europa vitoriosa vê em todas as tentativas de resistência ao seu domínio como resultante de uma atividade perversa, um complô sinistro…de métodos de traição, cruéis, sanguinários.”
Maxime Rodinson – La fascination de l´Islam, 1980
“Os mouros às portas!”

Cid, el campeador, o lendário cavaleiro cristão
A notícia da queda do castelo de Salvaterra, próximo a Toledo, nas mãos dos mouros, ocorrida em setembro de 1211, estremeceu a Espanha cristã. Se bem que os vencedores permitiram a retirada dos cavaleiros da Ordem de Calatrava para que recuassem para Castela, em todos acometeu o medo de que os árabes e os berberes estavam novamente “às portas”. De imediato, os reis cristãos da Península Ibérica entenderam que tinham que suspender, ainda que por um tempo, suas intermináveis querelas de fronteira. Era hora de união, não de desacerto. Quem tomou de imediato os providenciamentos foi Afonso VIII de Castela, despachando para Roma o arcebispo Ximenes de Rada, Primaz da Igreja espanhola, para que arrancasse do papa Inocêncio II uma bula conclamando uma cruzada. De posse de uma carta apostólica, Ximenes de Rada pôs o pé na estrada, anunciando pela Itália, norte da França e mesmo na Alemanha, que a gente do Profeta, se batesse os espanhóis, iria inundar a Europa inteira.
O califa e a Espanha moura
A Alhambra de Granada
Sabia-se que o califa Miramamolin (Abu Muhammad al-Nasir) atravessara o estreito, vindo de Marraquesh, trazendo consigo levas de cavaleiros almôadas e arqueiros turcos, além dos regimentos de berberes montados em cavalos fogosos, todos bons de briga. O que eles chamavam de al-Andaluz, a parte islâmica da Espanha, encontrava-se dividida em cinco emirados (Málaga, Sevilha, Valência, Badajoz-Lusitânia e Toledo) que volta e meia se socorriam de tropas africanas, como agora faziam com as comandadas por Miramamolin. “Cruzada! Cruzada!” Ouvia-se por toda a parte. Uma outra bula foi anunciada em fevereiro de 1212, prometendo ao cristão que se apresentasse para lutar contra os mouros a “remissão dos pecados”, enquanto uma complementar excomungava quem atrapalhasse o rei de Castela no seu esforço em deter o Islão. Vindo das regiões mais diversas, milhares de cavaleiros começaram a concentrar-se em Toledo. Eram lusitanos, navarros, catalãos, aragoneses, galegos, asturianos e, claro, predominando, os castelhanos. A eles juntaram-se ainda os guerreiros hospitalários e templários, além dos da Ordem de Santiago e de Calatrava, e tantos mais que vinham da França, da Alemanha. Eram uns 70 mil no total.

Os reis cristãos e seus campeões



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Cristão atacam mouros
À frente daquele poderoso exército, marchavam os reis Afonso VIII de Castela, Sancho II de Navarra e Pedro II de Aragão, seguidos dos campeões, tais como Lópes de Haro e Garcia Romero, cujas espadas, antes, haviam sido afiadas nos escudos e nos ossos dos mouros, em combates memoráveis. Agrupados em três grandes colunas, puseram-se em marcha para achar o califa. Ao verem que os mouros bloqueavam o Passo do Muradal, na província de Jaen, descobriram uma passagem nas montanhas que lhes permitiu alcançar a planície de Las Navas de Tolosa.

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O signo de Cristo espanta os mouros
Estimavam que o califa tinha uns 100 mil homens. Pouco lhe serviu. Depois de um primeiro choque, na manhã do dia 16 de julho de 1212, os cristãos tomados de fúria sagrada concentraram-se a destruir as forças de elite de Miramamolin. Foi um deus-nos-acuda. Os cavalões encouraçados e as enormes espadas dos cruzados fizeram um estrago medonho. Um alferes castelhano, dom Sancho de Reinoso, chegou a ver pairando no céu a Cruz. Era o toque final, o sinal sublime que faltava para que cada braço cristão se tornasse uma máquina de pancadas, de martelaços e adagaços.

A batalha e a derrota dos mouros


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O pavilhão do derrotado califa al-Nasir
Os mouros recuaram e em seguida fugiram. Dom Fernando, o infante castelhano, assaltou a tenda de al-Nasir, trespassando com a lâmina os últimos guardiães. Na planícies, jogados, estavam os feridos, milhares deles, implorando misericórdia. As montarias dos cruzados, nervosas, com as patas afundadas no pó ensangüentado, passavam por cima de tudo. Alguns dos mouros caídos talvez recordassem, naqueles momentos derradeiros, quando a vida se lhes esvaia, dos versos de Antera Saddad (525-615) que diziam “Lembrei-me de ti quando as lanças me feriram e dos brancos sabres gotejava o meu sangue. Quis beijá-los porque brilhavam como a tua sorridente boca“. No chão, amarrotada, uma bandeira do califa, que depois foi remetida ao papa. A batalha se encerrara. A Cruz batera o Crescente. Vingaram-se os cristãos do acordo que outros reis foram obrigados a aceitar, vinte anos antes, em 1192, quando Saladino continuou ficando com Jerusalém. A Internacional Cristã, animando a Reconquista da Ibéria, dava início a sua contra-ofensiva. Que, aliás, como se vê, até hoje ainda não parou.
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Idade Média – Filosofia Escolástica

Escolástica
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
A Escolástica (ou Escolasticismo) é uma linha dentro da filosofia medieval, de acentos notadamente cristãos, surgida da necessidade de responder às exigências da fé, ensinada pela Igreja, considerada então como a guardiã dos valores espirituais e morais de toda a Cristandade. Por assim dizer, responsável pela unidade de toda a Europa, que comungava da mesma fé. Esta linha vai do começo do século IX até ao fim do século XVI, ou seja, até ao fim da Idade Média. Este pensamento cristão deve o seu nome às artes ensinadas na altura pelos escolásticos nas escolas medievais. Estas artes podiam ser divididas em Trivium (gramática, retórica e dialéctica) e Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música). A escolástica resulta essencialmente do aprofundar da filosofia.

A Filosofia que até então possuía traços marcadamente clássicos e helenísticos, sofreu influências da cultura judaica e cristã, a partir do século V, quando pensadores cristãos perceberam a necessidade de aprofundar uma fé que estava amadurecendo, em uma tentativa de harmonizá-la com as exigências do pensamento filosófico. Alguns temas que antes não faziam parte do universo do pensamento grego, tais como: Providência e Revelação Divina e Criação a partir do nada passaram a fazer parte de temáticas filosóficas. A Escolástica possui uma constante de natureza neoplatônica, que conciliava elementos da filosofia de Platão com valores de ordem espiritual, reinterpretadas pelo Ocidente cristão. E mesmo quando Tomás de Aquino introduz elementos da filosofia de Aristóteles no pensamento escolástico, esta constante neoplatônica ainda é presente.
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Expansão islâmica

Expansão islâmica

Na entrevista que segue, com o escritor e historiador Mustafa Yazbek, estudioso dos povos árabes, você vai conhecer a origem e a história do islamismo durante a Idade Média, bem como a herança e as marcas que essa civilização deixou no Ocidente, em especial na península Ibérica.

Em relação a outras religiões o islamismo é uma religião recente? Quando ele surgiu?

Ele surgiu no século 7 da era cristã. Trata-se de uma religião nova, pelo menos em comparação com outras, como o cristianismo, o judaísmo ou o budismo. Tudo começou com as pregações de Maomé, que nasceu no ano de 570, perto da cidade de Meca, na Arábia.

Quem era ou quem foi Maomé?

Era um homem pertencente a uma família tradicional da cidade, mas cuja situação era economicamente instável. Desde pequeno, Maomé acostumou-se a percorrer várias regiões do Oriente Médio, viajando em caravanas. Conheceu a Síria, a Pérsia, a Palestina, sempre mantendo contato com povos seguidores do cristianismo e do judaísmo, aprendendo tudo o que podia a respeito dessas religiões monoteístas. Com 24 anos de idade, conheceu uma viúva, uma comerciante rica chamada Khadidja, com quem se casou. Poucos anos após essa união, Maomé começou a apresentar sérias mudanças de comportamento. Sofria crises de tremores, dores de cabeça, entrava freqüentemente em transe.

Ou seja, Maomé passou por uma experiência mística. Como foi essa experiência de acordo com a tradição islâmica?

Durante anos, Maomé viveu assim, meditando e passando por essas crises que ninguém explicava. Quando ele tinha quase 40 anos de idade, disse ter recebido a visita do arcanjo Gabriel e que este lhe havia declarado: “Sou o arcanjo Gabriel, enviado por Deus para comunicar tua escolha, por esse mesmo Deus, para anunciar ao mundo suas mensagens”. A partir de então, seguidamente, Maomé dizia receber mensagens, ouvir vozes. Aos poucos, recolhia essas informações com ajuda de amigos e parentes, compondo posteriormente o Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos.

Qual o conteúdo dessas mensagens?

Basicamente, o conteúdo das mensagens dizia respeito ao anúncio de uma única religião verdadeira, voltada para um único Deus, contrária à idolatria, ao paganismo que predominava entre as principais tribos que habitavam a Arábia. Maomé foi perseguido, pois sua pregação ameaçava poderes tradicionais, e refugiou-se na cidade de Iatribe (de pois chamada de Medina). Essa fuga, conhecida como Hégira (fuga ou expatriação), aconteceu no ano de 622 e marca o início do calendário lunar islâmico.

O que essa religião representou para os árabes?

Maomé e seus seguidores conseguiram, com a nova religião, dar início à unificação das tribos árabes. Fortalecido por seguidas vi tórias políticas e militares, Maomé conquistou a cidade de Meca. Manteve o centro religioso local, o templo pagão da Caaba, como símbolo da unidade religiosa, mas antes destruiu todos os ídolos ali existentes. Depois de sua morte, ocorrida no ano de 632, o islamismo teria como líderes os chamados califas (palavra que significa “sucessor”).

A partir daí a expansão do islamismo foi rápida?

Rapidamente, após a unificação das tribos árabes, o islamismo, expandiu-se em todas as direções. Em poucas décadas, ocupou uma extensão de terra somente comparável ao Império romano em seu auge. Assumiria logo o papel de agente de ligação comercial entre áreas economicamente importantes do mundo de então: na Europa, na África e na Ásia. O progresso militar atingido pelos muçulmanos permitiu-lhes isolar a Europa, bloqueando o comércio especial mente através do controle do mar Mediterrâneo. Para muitos historiadores, isso acentuou uma tendência já existente desde o século 5, voltada para a vida agrária, e que conduziria a Europa ao feudalismo.

Ninguém conseguiu conter o avanço islâmico?

Não houve força capaz de deter o avanço expansionista islâmico. O Império persa e o Império bizantino estavam enfraquecidos por um longo confronto entre si. Na Europa não havia poder algum em condições de derrotar definitivamente os seguidores de Maomé, embora a expansão tenha sido contida ali, em 732, pelos francos, na localidade de Poitiers, França.

Mesmo assim, eles conquistaram a península Ibérica…

Em menos de um século, já haviam sido dominados aqueles os impérios persa e bizantino, além da maior parte do norte da África e da península Ibérica. Somente nesta última região, os muçulmanos permaneceriam por cerca de oito séculos. Quando invadiram a península, no ano de 711, empurraram a monarquia visigoda rumo ao norte, onde se concentraria a resistência aos invasores durante os séculos seguintes. Estes somente seriam expulsos definitivamente pelos reis cristãos no século 15.

Quais as causas de uma expansão tão rápida?

A numerosa população árabe, a expectativa de alcançar bons resultados nos saques e a proposta de conversão dos infiéis ao islamismo, à verdadeira religião, estão entre as principais razões que permitiram uma expansão tão rápida.

Fale um pouco sobre a ocupação da Espanha…

Ocupando território espanhol, conhecido então corno Al Andalus, os muçulmanos controlaram as terras dos reis visigodos e da Igreja. Obrigavam os camponeses a pagar um terço da produção. Ao mesmo tempo introduziram inovadoras técnicas agrícolas, que beneficiaram os agricultores. Desenvolveram as atividades comerciais. Cunharam moedas. Exploraram minérios. Construíram estradas e aproveitaram aquelas existentes desde o do mínio romano. Edificaram cidades que foram autênticos símbolos da opulência da civilização urbana andaluza, como Sevilha, Córdoba e Toledo.

Foi um momento de auge na expansão islâmica?

Sem dúvida, o apogeu do islamismo ocidental foi vivido em território espanhol e desmoronou com a Reconquista cristã, concluída no ano de 1492. No entanto, a contribuição deixada pela civilização do Islão representa uma herança que continuou depois disso a beneficiar toda a humanidade.

Quais as marcas ali deixadas por uma ocupação tão duradoura?

A longa permanência dos conquistadores muçulmanos deixaria marcas definitivas no Ocidente, e nesse aspecto o papel da Espanha foi o de ser a principal área intermediária. A cultura muçulmana no Ocidente agiu como uma força sintetizadora, levando para as regiões conquistadas o que havia de mais importante em todos os centros da atividade humana, o que havia de mais significativo no conhecimento de chineses, indianos e gregos. Traduzindo as obras dos mais importantes autores da Antiguidade clássica, os muçulmanos transferiam para o Ocidente o conhecimento acumulado durante séculos.

Cite algumas contribuições culturais dos muçulmanos na Espanha.

Eles contribuíram para o desenvolvimento da cartografia e da astronomia, da química e da medicina, da indústria e do comércio, da arquitetura e da matemática, da filosofia e da literatura. Introduziram no Ocidente os algarismos hindus (hoje chamados arábicos). Desenvolveram a álgebra e a astronomia. Imortalizaram nomes como o do médico e filósofo Averróis, comentarista da obra de Aristóteles. Como o também do médico e filósofo Avicena, que teve sua obra enciclopédica, chamada “Cânon”, utilizada durante muito tempo nas escolas européias de medicina. Como o historiador Ibn Khaldun, que muitos vêem como precursor da abordagem científica da vida social. Como o sábio Al Biruni, que se dedicou a praticamente todas as disciplinas científicas de seu tempo.

Disso tudo pode se concluir que o islamismo, naquela época, foi muito mais que uma religião?

Mais do que simplesmente uma religião, o islamismo pode ser definido como uma civilização, um movimento ao mesmo tempo político, religioso, econômico e social, que, a uma velocidade extraordinária – tanto em termos de tempo quanto de espaço -, se expandiu pelo mundo, O Islão começou com os árabes, mas não se limitaria a eles. Em pouco tempo, os árabes seriam um entre os vários povos formadores da civilização islâmica, ao lado de andaluzes, iraquianos, berberes, iranianos, turcos, sírios, além de outros.




██ Expansão sob Muhammad, 622-632
██ Expansão durante o Rashidun, 632-661
██ Expansão durante o Califado Omíada, 661-750

Expansão do Islamismo Contemporâneo
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Clique aqui para apresentação em PPT sobre a expansão do Islã atualmente.

Veja no vídeo a seguir imagens que representam o interior da Caaba em Meca.

Idade Média – Tributos e impostos no Sistema Feudal


Tributos e impostos no Sistema Feudal

As principais obrigações dos servos consistiam em:
  • Corvéia: trabalho compulsório nas terras do senhor em alguns dias da semana;
  • Talha: Parte da produção do servo que deveria ser entregue ao nobre
  • Banalidade: tributo cobrado pelo uso de instrumentos ou bens do feudo, como o moinho, o forno, o celeiro, as pontes;
  • Capitação: imposto pago por cada membro da família (por cabeça);
  • Tostão de Pedro ou dízimo: 10% da produção do servo era pago à Igreja, utilizado para a manutenção da capela local;
  • Censo: tributo que os vilões (pessoas livres, vila) deviam pagar, em dinheiro, para a nobreza;
  • Taxa de Justiça: os servos e os vilões deviam pagar para serem julgados no tribunal do nobre;
  • Formariage: quando o nobre resolvia se casar, todo servo era obrigado a pagar uma taxa para ajudar no casamento, era também válida para quando um parente do nobre iria casar.
  • Mão Morta: Era o pagamento de uma taxa para permanecer no feudo da família servil, em caso do falecimento do pai ou da família.
  • Albermagem: Obrigação do servo em hospedar o senhor feudal.
Muitas cidades européias da Idade Média tornaram-se livres das relações servis e do predomínio dos nobres. Essas cidades chamavam-se burgos. Por motivos políticos, os “burgueses” (habitantes dos burgos) recebiam freqüentemente o apoio dos reis que, muitas vezes, estavam em conflito com os nobres. Na língua alemã, o ditado Stadtluft macht frei (“O ar da cidade liberta”) ilustra este fenômeno. Em Bruges, por exemplo, conta-se que certa vez um servo escapou da comitiva do conde de Flandres e fugiu por entre a multidão. Ao tentar reagir, ordenando que perseguissem o fugitivo, o conde foi vaiado pelos “burgueses” e obrigado a sair da cidade. Desta maneira, o servo em questão tornou-se livre.

Idade Média – Império Carolíngio

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O IMPÉRIO DE CARLOS MAGNO
Neste mapa, a Itália setentrional (Lombárdia ) e a Córsega estão incorporadas além do “ducado ” de Roma e Pentápole , Pepino desde 755-56 , compreendiam , ao Império de Carlos Magno , mas o Extremo Sul e a Sardenha ainda pertencem ao Impéri o do Oriente .
 Os Estados da Igreja , garantido s por Ancona e o Exarcado de Ravena, Estes territórios se achavam independentes de direito , mas , de fato , sob a proteção imperial que contava Roma e Ravena como metrópoles do Império. Mais ao sul, apresentava a península itálica os ducado s de Espoleto e de Benevento; Nápoles ain a era bizantina . A Bretanha Continental conservava seus chefes locais, e a insular , conquista da pelos saxões , jutas e anglos , apresentava então cinco monarquias (das sete que teve) : Kent , Wessex , Eastanglia , Márcia e Nortúmbria . Os limite s orientais do Império Carolíngio são mai s imprecisos ; podem ser considerado s os rios Elba inferior e Saale com o fronteira s da Saxônia conquistada por Carlo s Magno de 772 a 802. Para sudeste, a fim de enfrentar os ávaros , últimos vestígio s dos hunos , foram criada s as Marcas , territórios militares governados por margraves ou marqueses , com o a Caríntia , a Carníola e a Baviera, no Alto Danúbio .